Reportagens

DO JORNAL DO COMMERCIO
16 de novembro de 2008

Garimpe nos brechós online
Luciana Oliveira

atgaaac4tje0mcvbotuxwhi_yqapuvq-r6yaepbtggd8bruwcjtlsnovtfg4h7oivdwuefo4_wkcxajlkmxvw6tb99t1ajtu9vdlejfbhxd4nm_jhzzc_dqcofjdta1[1]


Quando é hora de jogar uma roupa fora? Quando se pensa em quanto custou cada peça, na época, sempre parece cedo demais. Quatro jovens publicitárias, Anna Terra, Catarina Souto, Carolina Burgo e Juliana Benbassat, resolveram que já era tempo de se desfazer das roupas quando perceberam que seria mais do que saudável remediar seus “impulsos compulsivos”. Elas também foram motivadas pela “falta de uma dieta” e pela necessidade de “desentupir o armário”. É assim que, num press-release improvisado para divulgar seu novo negócio, resumiram a opção por vender tudo, mesmo que a preço de banana (algumas peças são negociadas por até R$ 8), através de um blog na internet. Elas são apenas um exemplo das dezenas de jovens que investem nos brechós online.

Esse tipo de página parece ter se tornado, nos últimos meses, um novo capítulo na história das lojas de mercadorias de segunda mão, que teria começado há quase dois séculos. Conta a sabedoria popular que os chamados brechós surgiram no Rio de Janeiro ainda no século 19, quando um senhor batizado Belchior fundou o que viria a ser a primeira loja de objetos usados da cidade. O nome do proprietário pronunciado mal incontáveis vezes teria dado origem, portanto, àquele novo tipo de comércio que, quem diria, viria a cair no gosto das meninas mais consumistas às voltas com contenções de despesas.

O diferencial das versões online é que, longe dos cabides de madeira e das traças dos armários empoeirados, as roupas estão expostas em fotos caseiras postadas em blogs. Alternativa barata e informal. O único problema, como explica a blogueira Milka Elys, 20 anos, do blog Provador feminino, é ter pique para atualizar o espaço com freqüência. “O que mais dá trabalho é tirar as fotos das roupas. A gente tem que vestir a peça, achar alguém com muita paciência para ajudar e ainda editar a foto se ficar ruim… Tem que caprichar, principalmente porque, se a gente pára de postar, as clientes esquecem do blog”, explica.

Enquanto algumas meninas se viram e improvisam os blogs, outras têm um verdadeiro know-how, com direito a planejamento visual do site na internet e da comunidade no Orkut e a saquinho para a entrega das roupas. Mas não é nada tão sério quanto parece, explica Anna Terra, do blog Com que lay out eu vou. “Entre as blogueiras, não existe concorrência, a gente se ajuda, manda peças umas para as outras”, resume.

Prova disso é que em cada brechó online há uma lista imensa de endereços de outros sites. De link em link, o que mais importa é a pechincha. Há até quem se dispõe a pagar frete para receber a roupa usada em outro Estado. Completados dois meses de barganhas online, as meninas do Com que lay out eu vou contabilizam que a maior parte das vendas é feita para outros Estados. Uma dessas clientes “de fora” foi Lurdes Sorlando, de Jundiaí, interior paulista. Ela comprou uma bolsa e mais da metade do investimento foi consumido somente com o frete. “Mesmo gasto fez outra cliente nossa, do Rio de Janeiro. Ela comprou um vestido mesmo sabendo que não iria caber nela… Ela disse que simplesmente se apaixonou!”, conta Ana.

» navegue pelos brechós

http://www.bemcuidado.blogspot.com

http://www.breshow.blogspot.com

http://www.brexando.blogspot.com

http://www.cabidedeluxo.blogspot.com

http://www.cheiadeideia.blogspot.com

http://www.comquelayouteuvou.blogspot.com

http://www.nemluxonemlixo-moranga.blogspot.com

http://www.provador-feminino.blogspot.com

DO PE360.COM
11 de dezembro de 2007

Juízes consideram lei inconstitucional e criam polêmica na Justiça
Por Luciana Oliveira

Enquanto Pernambuco tem estado, desde agosto do ano passado – quando foi criada a Lei Maria Penha –, imerso em campanhas em prol do cumprimento da nova regra, outros estados brasileiros começam a assistir a contestação da lei que repreende mais duramente os agressores protagonistas de episódios de violência contra a mulher. É o caso dos estados do Mato Grosso do Sul e de Minas Gerais, onde a Justiça chegou, em dois casos, a determinar que a Maria da Penha é inconstitucional.

A coordenadora das quatro delegacias da mulher instaladas no estado, Verônica Azevedo, acredita que a avaliação, entretanto, não deve se repetir em Pernambuco. “Tenho certeza de que a Lei Maria da Penha é uma decisão irreversível. Mudar o comportamento das pessoas é um processo demorado e difícil, claro, mas já se nota alguma diferença, sobretudo na Região Metropolitana”, avalia a delegada, que conclui: “Em Pernambuco, graças às campanhas do Governo e da mídia, a Lei Maria da Penha tem tido muito êxito”.

De acordo com os dados da Gerência das Delegacias, nas quatro unidades especializadas em crimes contra a mulher no estado – a de Santo Amaro, no Recife; a de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes; a de Caruaru, no Agreste; e a de
Petrolina, no Sertão – foram registrados, entre janeiro e outubro deste ano, 285 flagrantes de agressão a mulheres, contra 52 no mesmo período do ano passado.

Como explica a delegada Verônica Azevedo, a possibilidade de registrar flagrantes é uma “vitória” devida à Lei Maria da Penha. “Agora – explica – é possível mandar os maridos responsáveis por violência contra as esposas diretamente para as unidades prisionais, depois de registrados os flagrantes. Eles não podem mais simplesmente serem punidos com penas alternativas, como acontecia antes da sanção da lei”.

Já no Juizado Especial da Mulher do Recife – criado em março deste ano, ainda é o único do Estado – foram iniciados 660 processos judiciais contra agressores e 84 casos já foram julgados nos últimos nove meses. Em outras comarcas, as agressões contra a mulher agora são julgadas em varas da Justiça comum – e não mais em Tribunais Especiais, mas podem terminar com pena de três meses a até três anos de prisão, já que a violência contra a mulher passou a não ser mais considerada um crime de menor poder ofensivo.

O fato de o tratamento dado às agressões à mulher ser diferente da punição dada às demais agressões é um dos argumentos utilizados pela corrente que considera a Lei Maria da Penha inconstitucional. “A Constituição, em seu quinto artigo, fala da igualdade de direitos para homens e mulheres”, explica a professora de Processo Penal da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Anamaria CamposTorres.

A titular do Juizado Especial, Maria Thereza Machado, acredita, entretanto, que as decisões sobre a inconstitucionalidade da lei podem ser consideradas isoladas, mas avalia: “Os julgamentos consagraram um entendimento defendendo por corrente minoritária de juristas e abrem um precedente para que juízes de outras comarcas e estados venham a tomar a mesma decisão ao julgar casos de violência contra a mulher”. A boa notícia, comenta a juíza, é que “no estado de Pernambuco, pelo menos até agora, não se conhece nenhum decisão de juiz ou do Tribunal nesse mesmo sentido”.

INCONSTITUCIONAL
Como divulgaram, sem muito alarde, alguns veículos de comunicação nacionais, o juiz do município de Sete Lagoas (MG), Edílson Rumbelsperger Rodrigues, e o de Itaporã (MS), foram reticentes ao negarem-se a aplicar a Lei Maria da Penha: ela é inconstitucional, pois desrespeita o princípio de igualdade entre homens e mulheres determinado pela Constituição de 1988.

Quem concorda com a interpretação é a professora de Processo Penal da Universidade de Pernambuco (UFPE), Anamaria Campos Torres. Para ela, além de inconstitucional, a lei estaria evidenciando que as mulheres, à diferença do que elas mesmas vêm argumentando nos últimos anos, são frágeis e indefesas. “As mulheres são valentes. Já vi várias mulheres matando homens. Mulheres ardilosas. A verdade é que não se pode dizer que elas são vítimas indefesas da violência, porque nem mesmo a desigualdade física pode ser mensurada… da desigualdade intelectual, então, nem se fala”, argumenta.

Anamaria Campos avalia, entretanto, que há sim casos em que se justifica a aplicação da Maria da Penha. “Os juizes e delegados devem prestar mais atenção, caso a caso, e ter sensibilidade para decidir quando aplicar a lei”.

A professora acredita ainda que a lei pode ainda estar obtendo resultados diferentes dos que anunciam os mais otimistas. Para ela, as mulheres vêm deixando de prestar queixas contra os agressores com medo de que eles sejam presos. De fato, os dados da Coordenadoria das Delegacias Especializadas da Mulher dão conta de um decréscimo de 21% no registro de boletins de ocorrência. Foram 10.304 entre janeiro e outubro do ano passado e 8.146 no mesmo período deste ano.

A coordenadora das quatro delegacias da mulher instaladas no estado, Verônica Azevedo, concorda que a Lei Maria da Penha determina tratamentos diferentes a homens e mulheres, mas argumenta que deve ser levada em conta a vulnerabilidade da mulher. “Para que seja fato a igualdade entre os sexos são necessárias ações afirmativas, como uma lei específica para defender as mulheres, porque a desigualdade ainda é visível”, comenta.

Apesar das críticas, mesmo que isoladas, à Lei Maria da Penha, a titular do Juizado Especial da Mulher no Recife, Maria Thereza Machado, explica que uma vez sancionada a nova norma, vai ser difícil desconsiderá-la. “Somente o Supremo Tribunal Federal poderá afastar, em tese, através de uma ação direta de inconstitucionalidade, a aplicabilidade da lei ou de parte dela, com efeitos para todos os juízes e Tribunais”, explica.

DO G1
30 de setembro de 2007

No Recife, lans da periferia lotam nos domingos e feriados
Instaladas em cubículos e puxadinhos, elas já fazem parte da rotina da comunidade.
Maior parte dos freqüentadores são meninos de até 15 anos.

Luciana Oliveira
Do pe360graus/Globo Nordeste

g
Luciana Oliveira/ pe360graus/Globo Nordeste
Maioria dos usuários de lans na periferia do Recife são garotos de até 15 anos (Foto: Luciana Oliveira/ pe360graus/Globo Nordeste)

O Vasco da Gama é um dos bairros mais populosos da capital pernambucana. Enquanto no Recife a densidade é de 6.478 habitantes por quilômetro quadrado, neste bairro da Zona Norte da cidade, em média 18.506 pessoas vivem em área equivalente. A comunidade também é uma das chamadas Zonas Especiais de Interesse (Zeis), classificação da Prefeitura para as áreas mais carentes da cidade. É neste típico bairro de periferia que se concentram quase 20 lan houses.

Ao andar pela rua homônima, a principal do bairro, tem-se a impressão de que há uma dessas lojas a cada esquina. É o que comenta Paulo Leal, de 41 anos, o proprietário de uma das lan houses nesse endereço. “Há um ano que resolvi colocar a loja aqui, e desde então cada dia aparece uma nova, inclusive nas ruelas e nas partes carentes do bairro”.

Instaladas quase sempre em cubículos improvisados – às vezes um “puxadinho” da própria casa -, elas terminaram fazendo parte da rotina da comunidade e ficam repletas de adolescentes. Segundo as contas de Leal, a maior parte dos freqüentadores são meninos que têm, em sua maioria, não mais do que 15 anos.

Algumas vezes, eles fazem pesquisas para a escola, como garante Ícaro Alves, 13 anos. O garoto bem que explicou que os sites de pesquisa na internet ajudam e muito nos trabalhos de história e matemática. Mas, enquanto conversava com a reportagem, ele não tirava os olhos da home do orkut. Ele acompanhava, mais especificamente, os tópicos da comunidade do colégio onde estudava até o ano passado.

g1

Luciana Oliveira/ pe360graus/ Globo Nordeste
Garoto em lan house no bairro Vasco da Gama, no Recife (Foto: Luciana Oliveira/ pe360graus/ Globo Nordeste)

Os sites de relacionamento e os jogos de computador são os principais interesses dos jovens freqüentadores destas lan houses, pelo menos é o que vem observando Olenida Dionísio, 21 anos, desde que começou a trabalhar numa das lan houses da Rua Vasco da Gama, há seis meses. “De informática mesmo, eles não querem saber muito não”, diz o funcionário de outra lan house, Gilvan Rodrigues, 24 anos.

“As lans do bairro ficam mais cheias ainda nos domingos e feriados, o pessoal vem pra se divertir, passar o tempo”, explica Olenida. O curioso, entretanto, é que os garotos da comunidade não são viciados em jogos eletrônicos e fogem dos estereótipos de nerds que passam horas na frente do computador.

Eles mantêm os fones de ouvido e não tiram os olhos da tela por no máximo uma hora por dia, dois dias por semana. Diego Medeiros, de 15 anos, respondeu, enquanto guiava sua bicicleta em um jogo que simulava uma ciclovia, que não é viciado em jogos de computador. Ele não tem um PC na casa onde mora com a avó e mesmo assim termina só indo à lan house em dias esporádicos. Bruno Monteiro, de 13 anos, também diz que só vai de vez em quando.

Como explica Leal, diferente do que se vê em cybers de centros comerciais ou bairros mais ricos da cidade, os meninos do Vasco da Gama não vão para travar longas batalhas em jogos conectados em rede, mas só permanecem por uma hora, o suficiente para gastar não mais do que R$ 1,00. É esse o preço que as lan houses cobram na comunidade.

Preços

g1_

Luciana Oliveira/ pe360graus/Globo Nordeste
Lan house cobra R$ 1,00 a hora (Foto: Luciana Oliveira/ pe360graus/Globo Nordeste)

Leal até conta que já tentou combinar um preço entre os outros comerciantes do ramo, uma espécie de cartel com preço estabelecido em, no mínimo, R$ 1,50. “É que com R$ 1 por hora não dá sequer pra sustentar o ponto. Me arrependo profundamente de ter montado uma lan house aqui no Vasco da Gama”, conta.

Para o dono de outro cyber café que preferiu não se identificar a única explicação para os preços baixos das lan houses no bairro é adulterar os contadores de energia ou fazer um “gato” nos fios da vizinhança. “Minha conta vem, por mês R$ 350,00, como é que alguém quer cobrar só 90 centavos pela hora de internet?”, questiona o comerciante.

Já Olenida conta que o rendimento da lan house onde trabalha chega a R$ 70,00 por dia. “É o suficiente para manter a loja e ainda tirar um bom lucrozinho”, calcula.

DO PE360.COM

9 de novembro de 2007


Cultura
Defeitos e qualidades de Renato Russo sobem ao palco do Teatro Guararapes

Por Luciana Oliveira

Quem diria que o autor de algumas das máximas que você dizia quando era adolescente era um jovem comum, quase tão comum quanto você? “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” ou “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração” saíram da cabeça de Renato Manfredini Júnior que, aos 15 anos, queria ter uma banda de rock que ficasse conhecida no mundo inteiro; ouvia Beatles, Bob Dylan e Ramones… Tem coisa mais clichê ?? (esta que vos escreve já teve as mesmas fantasias de adolescente, com idéias pretensamente progressivas).

Quem conta esta história é o espetáculo Renato Russo – A Peça, em cartaz no Teatro Guararapes até esta sexta-feira (9). A peça é um monólogo, com o ator Bruce Gomlevsky travestido de Renato Russo. Praticamente uma biografia acompanhada de discografia, para que cada passagem tenha uma faixa especial para acompanhar a leitura. O trabalho de produção, com roupas, maquiagem e barba espessa do líder da Legião Urbana é tão impecável que até que dá pra pensar que Renato Russo está no palco, mesmo que o ator tenha deixado bem claro em entrevista ao pe60graus: “Na verdade eu não pareço muito com o Renato, é mais a produção mesmo”.

A semelhança é tamanha que, ao uníssono da platéia no primeiro dia do espetáculo (última quinta-feira, 8), cantando, nostálgica, as músicas do trio de Brasília, dava até para pensar que estávamos mesmo em um show da Legião Urbana. Mas como entre uma música e outra começavam os monólogos fragmentados, caia a ficha “oops, o ano é 2007 e Renato Russo já está morto há 11 anos”.
Para quem não conhecia a obra do compositor e cantor que queria conquistar o mundo (conseguiu o Brasil, pelo menos), a peça serve para mostrar de onde vieram essas tais máximas e a fama da maior banda de rock que já chegou a existir no País, opinião sobre a qual nem os que não gostam da Legião podem divergir.
A peça contou com pesquisas minimalistas que se basearam, em princípio, na biografia de Renato escrita pelo jornalista Arthur Dapieve (O Trovador Solitário). Por isso tanto as asneiras como as conhecidíssimas frases de efeito do vocalista da Legião são citações ao pé da letra que, segundo reportagens e depoimentos de amigos, Renato disse em vida.
O espetáculo promete surpreender os fãs que não sabiam tantos detalhes sobre Renato, como aqueles que ainda pensavam que ao dizer “quem tem mais do que precisa ter,quase sempre se convence que não tem o bastante?” na música “Índios”, Renato estava falando de colonizadores. Com muita sinceridade e autobiografia escondidas nas letras, você vai perceber que Renato falava dele mesmo.

Serviço:
Renato Russo – A Peça
Teatro Guararapes, no Centro de Convenções de Pernambuco
Dia 9 de novembro, às 21h
Ingressos: platéia – R$ 50 e R$ 25 (meia-entrada); balcão – R$ 40 e R$ 20 (meia-entrada)
Mais informações: 3247.8020
da Redação do pe360graus.com

DO PE360.com
1 de setembro de 2007

Cultura
Celulari usa sertão para realizar seu sonho e o de Dom Quixote
Por Luciana Oliveira

“Você leu Cervantes?”, me perguntou Edson Celulari, cabelo lavado, ar de cansado depois de um hora e quarenta minutos de encenação da última sexta-feira (31) no palco do Teatro Santa Isabel. Antes que me deixasse responder o que ele já sabia, emendou mais perguntas aos que ouviam a conversa: “E você, leu Cervantes… você leu?…. você… ? leu? Pois é. Não é para criar uma estética nova nem nada dessas coisas que dizem por ai, que estamos encenando este espetáculo, foi para aproximar esta que uma das obras mais importantes de todos os tempos do público que não teve oportunidade lê-la”, explica.

Celulari falava do clássico Dom Quixote de La Mancha, a obra do século XVI de autoria de Miguel de Cervantes, que há cerca de três anos começou a ganhar uma versão para o teatro brasileiro, graças ao texto de Ruy Guerra.

Para quem não chegou a ler aquelas que, na primeira impressão, somam mais de 900 páginas – como eu mesma e talvez você – pode parecer um pouco difícil ter certeza de quais personagens são novos, quais são recriados e quais são fruto da imaginação do próprio Cervantes. Mas a peça “Dom Quixote de Lugar Nenhum” termina mostrando que não importa. O anti-herói Quixote será Quixote no século XVI ou em tempos pós-modernos e, principalmente, na Castilla la Mancha ou no Nordeste brasileiro. Além dos climas áridos e dos solos nada generosos, a Castilla espanhola e o Sertão têm em comum também um sem fim de lendas e tradições que fazem Quixote pensar que está de fato encontrando as aventuras que procurava.

Caboclos de lança, romarias, bailarinos de frevo, retirantes, feiras populares: aos olhares de um aventureiro sonhador que chegou diretamente da Espanha do século XVI sem quê nem por quê, esses sim são personagens e cenários dignos de uma aventura medieval. E o melhor, Ruy Guerra, a direção de Ernesto Piccolo os doze atores no elenco conseguem transformar o estigmatizado sofrimento sertanejo em poesia. Mas convenhamos, nada que nossos cordéis já não façam. Arrisco fazer uma aposta, então: deve ter sido o que pensou Ruy Guerra quando adaptava o texto. Não foi por menos que ele reinventou esse clássico da literatura e o fez parecer, no final das contas, um grande cordel.

“Dom Quixote de Lugar Nenhum” é também um sonho realizado. Celulari conta que o cavaleiro medieval alucinado sempre esteve entre os papéis que queria interpretar no teatro. “Para ser o personagem Dom Quixote eu precisei, antes, ter sido um Dom Quixote na vida real, e ter sonhado muito com esse espetáculo”.

Trinta anos se passaram desde que ele e Lourival Prudêncio, o ator paulista que dá vida ao fiel escudeiro Sancho Pança, voltassem a trabalhar juntos. “Percorremos caminhos diferentes, eu sempre como ator de teatro e o Edson virou Global”, brinca Lourival, “mas nossa vontade de encenar Dom Quixote de La Mancha se manteve”.

Lourival, aliás, tem suas próprias razões para ter sonhado com o espetáculo. “Eu amo não só “Dom Quixote…”, que li pelo menos três vezes, mas o Nordeste e esse sentimento arraigado pela tradição”. E como todo cordel que se preze dá uma lição de moral, Lourival propõe a sua: “Getúlio Vargas já dizia e não há melhor conselho: entre Dom Quixote e Sancho Pança está o equilíbrio da vida. Ninguém pode sonhar tanto e nem ser tão pé no chão”.

Serviço:
Dom Quixote de Lugar Nenhum
Local: Teatro Santa Isabel
Horários: Sábado (1º), às 19h e às 21h30 e domingo (2), às 18h.
Ingressos: R$ 60, 00 (inteira) e R$ 30,00 (estudante)
Mais informações: 3232 – 2939
Da Redação do pe360graus.com

DA FOLHA DE PERNAMBUCO

20 de maio de 2007

Compras em sites de leilões podem decepcionar
Produto pode ser diferente do anunciado ou nem sequer chegar

Luciana Oliveira
Especial para a Folha

Comprar pela internet, seja em site de lojas ou de leilões, tem inúmeras vantagens, entre elas a comodidade de não precisar sair de casa e de poder comparar os preços com alguns clicks do mouse. Mas, ao adquirir produtos na rede, os consumidores se submetem à falta de segurança dos sites e, no caso dos leilões, também à atuação de estelionatários. Segundo uma pesquisa divulgada pelo Centro de Reclamações de Crimes na Internet, do FBI, no ano passado, mais de 200 mil consumidores norte-americanos reclamaram de lesões em compras realizadas pela internet, representando um prejuizo total de U$ 198,4 milhões. O equivalente a 44,9% dessas reclamações são referentes a compras feitas em leilões.

Sites de leilões servem apenas para mediar as negociações entre fornecedores e internautas. Entre os problemas com que consumidor pode se deparar ao usar o serviço estão: a possibilidade de os produtos adquiridos serem diferentes daquilo que foi anunciado e, pior, a chance de que eles nem mesmo sejam entregues. Segundo o advogado Aluísio Xavier, que atua na área de direito do consumidor, essas são, inclusive, as duas maiores reclamações dos compradores internautas. Foi o aconteceu com Luisa Sobreira, 22. Ela comprou uma camisa oficial de time de futebol em um site de leilão, pagando diretamente ao vendedor através de um depósito bancário de R$ 65. Depois de passado o prazo máximo de sete dias para a entrega, o produto ainda não havia chegado à sua casa. “Um advogado me recomendou que eu mandasse um e-mail para o site ameaçando colocá-los na Justiça. Só 15 dias depois, a camisa chegou, mas nem era original”, conta Luisa.

Os sites de leilões na internet se declaram isentos de arcar com prejuizos dos compradores, mas o advogado do Instituto de Defesa do Consumo (Idec), Paulo Pacini, explica que, em alguns casos, eles podem sim ser responsabilizados e acionados judicialmente. “A partir do momento em que o site propicia um ambiente de compra, ele tem como obrigação garantir a segurança dos clientes”, explica. “Caso o consumidor seja lesado, ele pode processar o próprio site e, a depender do caso, será ressarcido do valor da compra e pode ser indenizado por danos morais e materiais”, acrescenta o assessor jurídico do Procon no Recife, Carlos Jatobá.

Para evitar problemas, Aluísio Xavier alerta para a necessidade de que, antes de efetuar a compra, o internauta se certifique de que o site é seguro. Basta ler sua política de privacidade e verificar a quantidade de reclamações de outros internautas sobre o site. Uma boa dica é o endereço http://www.reclameaqui.net. Ainda assim, para a presidente da Adecon (Associação de Defesa da Cidadania e do Consumidor), Rosana Grimberg, todo cuidado é pouco. “Sempre que possível, o consumidor deve preferir comprar nas lojas, vendo o produto. Assim ele não corre os riscos que existem nas compras pela internet e por call centers”, afirma.


DO DIÁRIO DE PERNAMBUCO

Capa da caderno de Turismo do Diário de Pernambuco
O mundo do lado de lá da Cordilheira
Quem conhece o Peru, percebe que se trata de um país cheio de contradições, assim como o Brasil

Luciana Oliveira
Especial para o DIARIO

Em Lima, a capital peruana, além das largas avenidas engarrafadas em horário de pico, dos orelhões da Telefonica, idênticos aos das ruas paulistanas, e de um bar de brasileiros na movimentada Calle de las Pizzas, pouca coisa remete ao Brasil. Os dois países parecem estar em continentes diferentes, separados pelas baixas densidades da Selva Amazônica, pela acidentada Cordilheira dos Andes e pela barreira do idioma, mais intransponível do que podem pensar os falantes do “portunhol”. Uma pergunta que se fazem os peruanos fica, então, sem resposta: mesmo compartilhando uma fronteira, como pode o Brasil saber tão pouco sobre o Peru?
Em trágicos momentos o Peru foi notícia na mídia brasileira, como em 2001, quando um terremoto matou 52 pessoas e deixou cerca de 900 feridas em Arequipa – a segunda mais importante cidade peruana -, Tacna e Camaná, ou em 1970, ano em que os mais de 25 mil habitantes da cidade andina de Yungay morreram soterrados por um deslizamento de terra. Além dos abalos sísmicos, também o nome do premiado escritor Mario Vargas Llosa lembra ao mundo o país escondido entre a cordilheira e o Pacífico. De acordo com o site Librusa.com, em 2002, Vargas Llosa foi o único latino-americano entre os dez autores mais vendidos na Feira do Livro de Madrid. Em um de seus últimos livros, “O Paraíso na Outra Esquina”, Vargas Llosa contou para seus leitores que foi na cidade peruana de Arequipa que o celebrado artista plástico Paul Gauguin passou parte da infância.

Arequipa é chamada de “a cidade branca” por causa das imponentes construções de pedras claras oriundas dos três vulcões adormecidos nos arredores da cidade. Além do apelido charmoso, os arequipenhos ainda se orgulham de seu Cañón del Calco, um cânion que, em alguns trechos, supera a profundidade do Grand Canyon americano.

Mas são, sem dúvida, a história e os vestígios da cultura inca ou, melhor dizendo, do Império Tahuantinsuyo (”quatro regiões”, no idioma quíchua), a maior referência que o mundo tem sobre o Peru. A república é tida como um dos países de maior concentração indígena da América Latina, junto à Bolívia e à Guatemala, e muitos dos museus são dedicados às culturas pré-incas e aos próprios incas, expondo tecidos, cerâmicas e objetos encontradas em ruínas de norte a sul do país. De acordo com o Instituto Nacional de Estadística Informática (INEI), dos mais de 26 milhões de habitantes do país, cerca de 3,1 milhões são responsáveis pela manutenção do quíchua, o idioma milenar do povo inca. Além do quíchua e do espanhol, outro idioma oficial do Peru é o aimara, falado por aproximadamente 440 mil habitantes andinos.

Não é preciso procurar muito para encontrar os vestígios da cultura inca vivos no interior do país. Homens vestidos com ponchos coloridos e mulheres com várias saias longas, carregando crianças em seus mantos feitos de lã de camelídeos vivem uma existência pacata e repleta de limitações a pelo menos a 40 quilômetros de Cuzco. A antiga capital do Império Inca e, em tempos modernos, uma das mecas do turismo e das pesquisas em antropologia,Cuzco é uma ilha de desenvolvimento em meio à pobreza dos Andes. A mistura de arquitetura colonial e resquícios de construções incas transforma a cidade em uma pequena amostra da Torre de Babel, recebendo turistas de todo o Mundo durante as quatro estações do ano.

De contrastes e tradição
No distrito limenho de Miraflores, conhecido por seus ares de cidadezinha européia, com avenidas e jardins impecáveis, toda a população dispõe até de Internet de banda larga, sem fio e gratuita, através do sistema Wi-Fi. No Brasil apenas uma cidade do interior paulista, Sud Menucci, disponibiliza equivalente serviço à população. O Aeroporto dos Guararapes Gilberto Freyre é um dos poucos locais públicos do Recife onde se pode acessar o sistema internet Wireless.

Por outro lado, mesmo os moradores das áreas mais caras de Lima (além de Miraflores, os distritos de San Isidro e La Molina) são submetidos a um transporte público precário capaz de deixar qualquer lotação ilegal de cidades brasileiras orgulhosa. São veículos dos anos 80 e o preço da passagem dá até para negociar com o cobrador, o sujeito de pé, gritando o itinerário do ônibus através da porta.

Até a preferência da população por quitutes e aperitivos típicos, como os populares picarones, anticuchos e a mazamorra morada, ao invés do universal Big Mac levanta algumas questões sobre a inexistência de estereótipos aos moldes das sambistas e jogadores de futebol para resumir o país. O Peru é um país que, em certos momentos, parou no tempo, cujo povo nas ruas ainda discute se a estátua do conquistador Francisco Pizarro, retirada do Centro Histórico de Lima em 2003 era ou não uma afronta à soberania nacional. na verdade, uma coisa é certa: se zelar pela milenar cultura inca significa receber diariamente cerca de mil visitantes só na “cidade perdida” de Macchu Pichu, então viva ao passado! (L.O.)

Não deixe de visitar
– O Centro Histórico de Lima, onde se encontra a maior concentração de arquitetura colonial da capital peruana;
– As avenidas e parques impecáveis do Distrito de Miraflores, passeio que proporciona agradáveis caminhadas;
– O Mirante de Barranco, de onde de pode apreciar o pôr do sol sobre o Pacífico;
– O Cañón del Colca, a maior depressão sul-americana, nos arredores de Arequipa;
– As ilhas flutuantes do Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do planeta, a quase 4 mil metros acima do nível do mar;
– Bairro de San Blas, em Cuzco, onde se misturam arquitetura inca e colonial nas estreitas ruas de legítimo estilo espanhol;
– Macchu Pichu, a cidade perdida dos Incas, Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade, aonde se pode chegar de trem ou após quatro dias de caminhada pela Trilha Inca.

Não deixe de provar
– Pisco Sour: coquetel feito a partir do Pisco, bebida alcoólica à base de uva cuja origem é controversa: alguns atribuem ao Peru, outros ao Chile.;
– Ceviche: peixe ou mariscos cozidos nosuco de limão e bastante apimentados, é uma das principais atrações do turismo gastronômico no Peru;
– Guloseimas limenhas típicas: podem ser encontradas em festivais gastronômicos durante os finais de semana, na Alameda Chabuca Granda, às margens do rio Rimac, e no Mirante de Barranco;
– Chicha Morada: de popularidade equivalente ao suco de laranja no Brasil, a bebida é feita a partir do cozimento da maiz morada, um tipo de milho de grãos quase negros;
– Sorvete de Lúcuma: fruta exótica, original do Peru.

Advertisements

%d bloggers like this: